quinta-feira, 14 de abril de 2011

~ Questões sobre a formação do funcionamento Borderline

A organização Borderline pode ser identificada na adolescência. Para tanto, inicialmente, deve-se ter presente a questão da crise normal de adolescência, onde ocorre uma mudança no papel social do sujeito, além de uma mudança física real com a perda do corpo infantil para um que representa o adulto. Essa crise normal deve ser contrastada com a presença de um quadro sintomático característico da estrutura do Borderline.
Essa diferenciação entre a adolescência normal e patológica vai desencadear a partir do olhar do psicólogo que esteja avaliando esse adolescente ter um direcionamento sobre a história de vida desse indivíduo incorporado a um padrão reflexo da inserção em determinada cultura e sociedade, incluindo a família como principal fonte de consequentes traços e conduta que definem uma personalidade Borderline. Dessa maneira o adolescente Borderline se diferencia do normal esperado, nas seguintes principais questões: consolidação da identidade do ego, identidade sexual e laços com as figuras parentais (Jordão e Ramires, 2010).
O vínculo familiar é discutido recentemente por muitos autores, como Jordão e Ramires (2010) onde, numa revisão bibliográfica vasta, apresentam considerações referentes a vínculos fragilizados, apegos inseguros e geralmente a figura materna como negligente ou superprotetora. Articulam também sobre a presença de algum tipo de violência na família (abuso físico ou sexual) incluindo igualmente a características de maus tratos e violência sofrida na infância e a incidência de depressão materna.
Como a mãe já apresenta conflitos em sua vida, seu filho passa a ser reflexo de seu comportamento, onde a falta de cuidados ou afetos são essenciais para a formação do Borderline. A falta de investimento narcísico no bebê lhe impede de atribuir sentido e significar as suas experiências. Essa lacuna gera consequências no processo de individuação do bebê, onde na adolescência pode vir a desenvolver em diferentes comportamentos, como a falta de relações interpessoais duradouras e significativas para o sujeito.
Pensando então nesse contexto familiar fragmentado, diluído, a criança é privada das significações desenvolvimentais que principalmente a figura materna deve proporcionar, sua identidade se torna confusa, desintegrada, ou seja, não reconhece o que é do outro ou de sua própria identidade.
De todo o modo, pensar numa construção de aspecto Borderline remete a pensar em sua história e configuração familiar, especialmente das relações com a mãe. A criança em si é dependente dessa figura materna até que atinja capacidade para iniciar o processo de sua separação, sua individuação, o que fica comprometido, num sentido restrito, quando se caracteriza na falta dessa importante figura que dá significação e gera possibilidade de um desenvolvimento de simbolização na criança. Dessa maneira, faz sentido pensar que por mais que seja na adolescência que eclodem a sintomática Borderline, esta é principalmente constituída na infância, como ensina a teoria psicanalítica.



Referência:
Jordão, A. & Ramires, V. (2010). Adolescência e organização de personalidade borderline: caracterização dos vínculos afetivos.  Paidéia, 20(47), 421-430.


Atenção: Essas considerações são feitas por mim a partir do texto acima referenciado e compreendido na bibliografia básica da disciplina de Processos psicopatológicos na adolescência, vida adulta e desenvolvimento, contendo aspectos do meu entender.

terça-feira, 5 de abril de 2011

~ Dos distúrbios precoces à psicopatologia na adolescência



Escosteguy, N. (1994). Dos distúrbios precoces à psicopatologia na adolescência. In R. Graña, Técnica psicoterápica na adolescência (pp. 165-182). Porto Alegre: Artmed.

Segundo a teoria psicanalítica sobre a elaboração da personalidade humana, um dos eixos fundamentais que modela tanto o saudável quanto o patológico é a relação da mãe com o bebê. Dada essa característica, as consequências dessa relação são reveladas na adolescência em aspectos normais do desenvolvimento ou sintomatológico.
Segundo a teoria eriksoniana, a transição da adolescência para a vida adulta gera uma crise de identidade. É nessa época que todas as fases propostas por Freud devem estar de certa forma ‘resolvidas’ para que haja um “todo em funcionamento” (p.166). Na adolescência ocorre a maturação de pensamento e biológica, e pode permear o campo para uma eclosão de sintomas principalmente da ordem psicótica.
Winnicot contribui de maneira que descreve a dependência absoluta entre a mãe e o bebê. Gradativamente, ao passar dos meses, essa dependência passa a ser relativa, num “desenvolvimento rumo à independência” (p. 167).  Afirma a importância do outro na relação, geralmente é a figura paterna. Essa relação com os pais deve se desenvolver de maneira afetuosa, respeitando o momento do bebê pois assim ambiente gera características facilitadoras para o crescimento da criança.
Bion reforça a importância da relação mãe-bebê. O vínculo que provém dessa relação é fundamental na construção do psiquismo do bebê, pois se trata de uma experiência, acima de tudo, emocional para ambos. Isso significa pensar que a mãe é contingente as frustrações do bebê e nomeia o mundo e sentimentos para o filho, enquanto o bebê é receptor direto dessa experiência.
Margaret Mahler articula sobre o processo de separação-individuação provenientes dessa relação mãe e seu bebê. Quando há falhas nas fases de separação, além de ser campo para psicoses simbióticas, pode gerar desorganização na personalidade, como narcisismo e Borderline.
O complexo de Édipo é um regulador psicológico entre narcisismo e autoestima. Isso remete pensar que com o surgimento de um Superego, ou seja, algo que discrimina normas, deveres, certo e errado, age como uma barreira às características de uma personalidade narcísica, principalmente na onipotência típica na constituição dessa personalidade.
Ainda para Mahler, uma relação insatisfatória no 1º ano de vida influencia uma tendência depressiva revelada na adolescência, que é consequência de uma falta de libidinização narcísica que deveria ser investimento da mãe, ou cuidadora.
A construção do self depende da relação com o outro. A falha na empatia materna remete a um “self frágil ou defeituso” (p.170). Quando a coesão do self é frágil, são necessárias outras pessoas para a manutenção do senso precário do self ou identidade.  Pode seguir uma desintegração da personalidade como acting-out, ou seja, perversões, transtorno do pânico, depressão, vazio. Sendo que quando o objeto de self é substituído, o self retorna. Num outro nível, o Borderline possui um self com coesão temporária. Tem grande dependência do objeto do self para manter uma estabilidade psíquica. É por isso que geralmente a consequência desse tipo de funcionamento é uma difusão da identidade, onde se apropria de outros e confunde a sua identidade com a dos outros.
No narcisismo normal ocorre um investimento libidinal da mãe. Esse aspecto tem finalidade na capacidade reparatória (autoconfiança) o que envolve diretamente a estruturação da personalidade.
Na visão de Melanie Klein, o 1º ano de vida envolve um todo representado por dependência, função materna, maturação, ambiente sadio. Essas questões desenvolvimentais são colunas na formação do sujeito, assim sendo, falhas desses aspectos repercutem em psicopatologias.
A partir desses aspectos ate aqui ordenados, pensa-se na adolescência como consequência dessas elaborações provindas da infância. Alguns itens são:
- constituição da identidade subjetiva (crise da identidade)
- relação com o corpo (autoerotismo) e a identidade sexual (homo e heterossexualidade)
- nível de pensamento (fantasia, realidade, linguagem, simbolização, abstração)
- relações interpessoais (dependência X autonomia)
- manejo pulsional (afeto, prazer, ansiedade, frustração, agressividade, defesas)
- desenvolvimento de capacidades sublimatórias (aprendizagem, esporte, participação social, cultural).

O uso de drogas na adolescência

O investimento e envolvimento entre mãe e bebê origina um esboço sobre sua identidade sexual futura. Ocasiona duas formas de autoerotismo: A) Objetal (relação prazerosa com o objeto) e B) antiobjetal (substitui a falta de libidinização e prazer por uma descarga e busca de sensações corporais fortes, num suplemento de carências com múltiplos excessos. Esse seria, então, um autoerotismo compensador.
A evolução do autoerotismo está ligada com a separação da mãe, na sua constituição de self. Para que isso ocorra ocorre uma separação para que a criança formule sua própria imagem, com o suporte introjetado da mãe (na ausência da mãe, o bebê volta-se autoeroticamente para si). O objeto transicional funciona simbolicamente como uma presença protetora da mãe e se relaciona com a capacidade de estar só sem angústia. É ai que o bebê se diferencia dos outros e mantém a imagem do objeto ausente.
As experiências precoces satisfatórias geram a base de um sentimento de continuidade, sentimento de si mesmo, por outro lado, as experiências precoces insatisfatórias geram uma busca constante de soluções para substituir as falhas do objeto. Essa busca vem de fora para solucionar problemas internos. Exemplo: álcool, drogas, comida, sexo... Para manter um sentimento de existência (que lhes falta), os adolescentes procuram substituir as emoções, os vínculos objetais pelas sensações.
Esses objetos são utilizados para a substituição do objeto transicional e se destina a dar um sentimento de ser real ao indivíduo, ou seja, preencher lacunas do EU. O outro é considerado o responsável a tudo que lhe ocorrer, espera deste a própria felicidade (relação de dependência).
A relação sexual compulsiva permite a fuga de estados psíquicos penosos e o parceiro não é visto como outro indivíduo, mas sim como droga. É a busca incessante no mundo externo para preencher as faltas de objeto interno (principalmente a mãe arcaica, ou mãe droga). Em outras palavras, o encontro com a droga vai depender da organização psíquica do sujeito, desde sua infância.



Atenção: Essas considerações são feitas por mim a partir do texto acima referenciado e compreendido na bibliografia básica da disciplina de Processos psicopatológicos na adolescência, vida adulta e desenvolvimento, contendo aspectos do meu entender.

~ O Utilitarismo


Rachels, James. (2006).  O debate sobre o utilitarismo In Os elementos da filosofia da moral (pp. 104-118); 4ª Ed. Trad. Roberto Cavallari Filho; revisão científica José Geraldo A. B. Pocker... (et al.). São Paulo: Manole.

Tema:
Princípios éticos do Utilitarismo.

Delimitação do tema:
Consequência das ações, felicidade.

Pergunta (problema):
As ações e consequências são delimitadas pela finalidade da felicidade própria?

Resposta (hipótese):
Para o Utilitarismo, os atos devem ser baseados em compensação a finalidade que eles objetivarão, sendo a principal e única a felicidade, ou seja, a felicidade contida em realizar alguma ação é ética por si mesma.

Objetivo:
O texto objetiva conceituar o utilitarismo, bem como as criticas que surgiram a este movimento e as supostas defesas apresentadas. Permite mostrar uma via ética que quase está abandonada devido a pouca abrangência que tem.

Justificativa:
O autor justifica a importância da felicidade como um fim, que é o que propõe o utilitarismo.  Para isso, envolve as consequências dos atos, que podem gerar felicidade ou infelicidade onde o valor da felicidade é congruente a todos.
Algumas críticas lançadas ao utilitarismo enfatizam a justiça, onde o utilitarismo aprovaria a mentira (que é uma coisa ruim) sendo que se o fim revelasse consequências boas; os direitos, onde estes não devem ultrapassar os propósitos em que prejudiquem outro sujeito; e as razões passadas, que são excluídas pelo utilitarismo, pois este sempre visa às consequências, e, sabe-se que o passado é importante na determinação de atos atuais ou futuros, daí o argumento desta terceira crítica ao utilitarismo.
Houveram defesas a partir dessas e outras críticas que foram surgindo, porém muito fracas e com justificativas pouco coesas, o que gera a pouca credibilidade nessa corrente ética.

Análise crítica:
A partir das considerações a que se propõe o utilitarismo, acredito que em partes é uma teoria que visa somente a teoria em si, não parece abranger a todas as ações e situações em que o ser humano está inserido. É conveniente pensar na felicidade como finalidade nas ações, entretanto, alguns limites devem ser estabelecidos e respeitados, onde a felicidade de alguém não avançar os limites quando se trata da felicidade que envolva aos outros. Pensando dessa maneira, o inventor ou inventores da bomba atômica, ou seus componentes, devem estar felizes pelo avanço na ciência, pela utilidade (?) de sua criação. Por outro lado, quanta desgraça e infelicidade a mesma bomba provocou?
Pensar que as pessoas tem capacidade de julgar o certo e o errado visando uma felicidade maior não é muito sustentável, pois cada personalidade é única e cada forma de pensar é única. Grosso modo, não há, somente pela aparência, como conhecer as intenções e prever atos de cada sujeito, se estes estão ligados à felicidade ou algum ganho secundário, ou qualquer outra consequência.

Atenção: Reflexão a partir da bibliografia citada para disciplina de Ética sob orientação do Professor Mateus Salvadori. O professor tem ciência de que este material encontra-se disponível nesse endereço bem como a citação de seu nome aqui contido.

terça-feira, 29 de março de 2011

~ Kant e a ética do dever


 Kant, Immanuel. (1785).  Transição do conhecimento moral da razão vulgar para o conhecimento filosófico In Fundamentação da metafísica dos costumes (pp.21-38). Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70.
  
Tema:
Ética e moral.

Delimitação do tema:
Ética do dever, ética moral, vontade, liberdade, razão.

Pergunta (problema):
Quais as características determinantes para o ato ser considerado moral, segundo Kant?

Resposta (hipótese):
Kant articula que a escolha do ser humano é um ato racional. Qualquer ato livre onde a máxima possa ser universalizada pode ser considerado ético. Em suma, a razão e o entendimento que o sujeito faz do ato é o que o caracteriza como ser ético.

Objetivo:
Kant objetiva esclarecer os atos humanos como sendo racionais. Mesmo a vontade e a intencionalidade podem ser consideradas como racionais, ou seja, como um dever prático. O dever não é compreendido como uma obrigação, mas depende da liberdade, da autonomia, pois para ser livre, o ser humano acaba por ser obrigado pelo dever de ser livre.


Justificativa:
Segundo o autor, o temperamento e o caráter dependem de uma dose de vontade para por algum pensamento em prática. Para tanto, o ser humano utiliza da razão como prática, sendo assim, esta tem influência sobre a vontade.
Continuando, Kant defende que o bem deve ser feito pelo dever e não por inclinações, não pela pura boa vontade. A própria felicidade, para ele, é um dever, pois em sua ausência, ela gera uma violação dos deveres e por outro lado, na sua presença, a felicidade dá sentido ao valor moral.
Justifica ainda que é determinante que as ações quando praticadas pelo dever tem o ser valor moral e que importam não as metas a serem atingidas (finalidade) e o efeito esperado, mas sim a máxima que possa ser universalizada.
Ademais, o dever é a “necessidade de uma acção por respeito à lei” (p. 31). Isso significa que a lei deve ser obedecida, mesmo que haja prejuízo nas inclinações e vontades do sujeito, pois essa lei é uma máxima universalizada. Esse pensamento se baseia no intuito de que somente o ser racional tem essa capacidade e isso o torna moral.

Análise crítica:
Kant analisa a razão como uma única verdade e possibilidade como explicação ao acting out, porém, não seria equivoco pensar que não exista algo maior que impulsione determinadas escolhas que não seja a razão? O sujeito está sendo sem moral por ter uma lei própria que determine a escolha de suas ações? Deve seguir leis prontas e universais? Não há exceções? Muitas dúvidas culminam com a leitura de Kant, mesmo que os argumentos apresentados sejam persuasivos e consistentes.
O ser humano em si possui uma personalidade única, com conflitos e crenças únicas para aquele sujeito. Como podemos então formular algo que seja estanque, engessado e que proponha funcionar em todos os tipos de situações, em todos os tipos de funcionamento de indivíduos, em todos os tipos de culturas?
Não pretendo criticar Kant, mas são dúvidas que permeiam meu pensamento e que conflitam com o fato de que personalidade, circunstância e cultura influenciam as ações e o comportamento humano.


Atenção: Reflexão a partir da bibliografia citada para disciplina de Ética sob orientação do Professor Mateus Salvadori. O professor tem ciência de que este material encontra-se disponível nesse endereço bem como a citação de seu nome aqui contido.

domingo, 27 de março de 2011

~ Ideias e Psicologia


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Qual a força das ideias na sua área de conhecimento?

A psicologia é uma ciência recente, entretanto, muitas ideias já haviam sido discutidas anos antes. A filosofia e a literatura tiveram grande importância no nascimento dessa nova forma de fazer ciência, de observar e descrever o comportamento. A literatura contribuiu de forma sutil, onde aos poucos autores começaram a descrição de sintomas e modos de pensar e agir em obras literárias do tipo românticas. A filosofia, por sua vez, junto com seus meios de compreender o ser humano traz um significado importante, pois introduz a noção de inconsciente, de alma, de mente, por diversos filósofos. Pensando por esse viés, a psicologia sempre se aliou à força de ideias presente na essência de sua formação, ou seja, suas vertentes.
Se não fossem as ideias de filósofos, de médicos, de neurologistas que até hoje tem seus trabalhos e ideias publicados, como seria então o despertar da psicologia?
Além desse elemento histórico, penso que a psicologia é em si uma ideia. Uma ideia, como bem abordada pela teoria psicanalítica, envolve a cura pela fala, pelo discurso. Isso significa que a fala e os processos envolvidos nela, como por exemplo, os insights que provém na psicoterapia, é por si um método de tratamento e, esse método é uma ideia pela busca da cura, tanto para o paciente quanto para o terapeuta.
Ser psicólogo é estar aberto a ouvir o outro, sem julgar, mas tentar compreender com profundidade o funcionamento ou o conflito do sujeito. Para tanto, o profissional tem em si a ideia de que ali há uma pessoa em sofrimento, que veio em busca de ajuda e que acredita no potencial da ciência psicológica. Em si própria, essa ideia, essa perspectiva já é um pedido de socorro.
A partir desses itens citados, percebe-se que, no tocante a psicologia, as ideias tem um nível de força bastante elevado e firme, porém não estático, pois com o desenvolvimento de tecnologias e a ampliação das correntes de pensamento, outras novas ideias e teorias podem surgir e ampliar o uso, a técnica e a prática da psicologia.

Atenção: Reflexão a partir da bibliografia citada para disciplina de Epistemologia sob orientação do Professor César Augusto Erthal. O professor tem ciência de que este material encontra-se disponível nesse endereço bem como a citação de seu nome aqui contido.

terça-feira, 22 de março de 2011

~ Aristóteles e a ética da virtude


Marcondes, Danilo. (2007). Aristóteles In Textos básicos de ética (pp. 37-48). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Tema:
Ética.

Delimitação do tema:
Ética da virtude, do caráter, da natureza humana.

Pergunta (problema):
A ética é um saber prático?

Resposta (hipótese):
Conhecendo as características que envolvem a prática a fim de exercitar a busca pela virtude da ética, pois conhecendo-as, é possível atingi-las, tornando, o sujeito mais feliz.

Objetivo:
O texto esclarece que segundo as concepções de Aristóteles, a ética é um saber prático, assim como a virtude, não é inata, mas sim aprendida, um hábito. O objetivo disso  para o ser humano é a busca da felicidade, ou a realização pessoal, como colocado pelo autor.

Justificativa:
O argumento utilizado é  o primeiro tratado de ética de Aristóteles, ou seja, a Ética a Nicômaco, e os principais tópicos trazidos são: conceito de felicidade, virtude, meio-termo, virtudes intelectuais e sabedoria prática, felicidade.
Sobre o conceito de felicidade, enlaça com a realização humana, sendo um bem-estar naquilo que se realiza. As escolhas, então, são baseadas na felicidade que virá como resultado.
Referente a virtude, enfatiza que esta não é inata do ser humano, mas um hábito, sendo necessário exercitá-la.
No que concerne ao meio-termo, afirma que o ser ético envolve um equilíbrio determinado pelas circunstâncias e situações em cada caso, devendo-se sempre evitar os extremos do excesso e da falta. Isso permite afastar a margem de erro possível, visando uma melhor decisão.
A respeito as virtudes intelectuais e a sabedoria prática,  articula que essas podem ser classificadas em cinco formas: arte ou técnica, conhecimento científico, prudência, saber prático ou discernimento, intuição intelectual e sabedoria.
No constante ao discernimento, discorre que esta é uma qualidade onde o sujeito tem capacidade de distinguir o que é bom ou ruim para si e para os outros. Como se trata de uma questão de opinião, é variável e relaciona-se com a excelência moral em sentido estrito.
Relativo a felicidade, inclui que esta pode ser entendida como a contemplação das verdades eternas. Isso inspira a felicidade interna e faz que o indivíduo utilize sua própria razão. Para isso, a sabedoria contribui para tornar o homem mais feliz.

Análise crítica:
A partir das considerações de Marcondes (2007) sobre a ética aristotélica, percebe-se que esta é uma característica que envolve a razão humana, pois envolve mecanismos de distinguir o certo do errado, analisando as circunstancias que ocorrem. Essa tomada de consciência do ser humano permite uma espécie de um julgamento com a finalidade de evitar alguma consequência drástica e procurar trazer a melhor escolha na determinada situação.
A virtude poderia ser lapidada a partir do momento que o comportamento e pensamento estão sendo moldados juntamente com a personalidade de um ser humano, como forma de um ensinamento.  Esse tipo de instruções, numa criança, por exemplo, é algo que é construído principalmente daquilo que a família onde está inserida pratica. A partir do ponto de vista da teoria psicanalítica da personalidade, muitas das crenças e formas de valores de um ser humano são recebidos e incorporados na infância, e o exercício na sociedade desse padrão de valores adotados é, a manifestação do que foi observado e aprendido na infância. Isso quer dizer que o fazer ético envolve caraterísticas que devem ser praticadas desde sempre, pois são enraizadas as concepções de certo e errado desde o começo da vida.
Concluindo, vale ressaltar a importância das funções mentais envolvidas na prática da ética, como a tomada de consciência na distinção e decisão de algo que influirá para si ou para mais de uma pessoa. Assim, a virtude pode ser entendida como pertencente a um indivíduo feliz.


Atenção: Reflexão a partir da bibliografia citada para disciplina de Ética sob orientação do Professor Mateus Salvadori. O professor tem ciência de que este material encontra-se disponível nesse endereço bem como a citação de seu nome aqui contido.

sábado, 19 de março de 2011

~ As ideias movem o mundo?



Mendonça, E. (2001). As ideias movem o mundo In E. Mendonça, O mundo precisa de filosofia (pp. 13-34). Rio de Janeiro: Editora Agir.

Segundo Mendonça (2001), as ideias movem o mundo. Inicia seu pensamento trazendo um histórico sobre a questão do poder na vida humana, onde, pensando numa linha do tempo, o poder encontrava-se na força na época militar, passando para o valor econômico na burguesia e atualmente para a política que é a maior forma de poder que o homem alcança. A política gera status e coloca os homens numa posição de controle sobre os demais. O autor também refere as religiões que, através da criação de suas próprias filosofias, exercem uma forma de modelagem de pensamento e poder sobre os que nela creem.
A filosofia acredita na força das ideias, ou seja, numa força espiritual que ajuda o homem a permanecer na condição de homem e, além disso, confia na premissa de que o pensamento transforma a face da humanidade, pois envolve uma reflexão profunda sobre si próprio e sobre o mundo (p.19).
Para argumentar seu ponto de vista, utiliza três grandes tópicos sobre as ideias e suas relações. São elas: ideia e sentimento; ideia e vontade e, ideia e ação. No que reflete o sentimento, articula com o conceito de que estes variam de acordo com as ideias que são anteriormente estabelecidas por nós. Assim, o ser humano infere algum afeto sobre algo no momento em que há alguma reflexão interna em si. Sobre vontade, pronuncia que as ideias fazem parte de um contexto de moral no ser humano, onde é aprendido a distinguir o bem e o mal. Entretanto, poderá haver vontade em praticar o mal, mas a ideia do bem acaba sendo um obstáculo para tanto. Finalmente, compõe seu argumento fazendo uma conexão entre a firmeza das ações, onde essas dependem de ideias previamente definidas e pensadas profundamente.
A conclusão para o autor é de que a força da filosofia, então, é encontrada na consciência da força das ideias, onde essas por sua vez, movimentam o mundo.
Pensando na contemporaneidade e nos grandes avanços tecnológicos provenientes, outra força que é capaz de mover o mundo é o dinheiro. O significado do dinheiro na sociedade capitalista é o de poder. Poder sobre bens materiais e poder sobre o outro. O dinheiro é necessário para todos os aspectos que envolvem a vida humana, desde os de sobrevivência básica, até os caprichos e materiais de consumo que, principalmente a mídia e meios de comunicação propagam como sendo necessários para a vida completa do sujeito. O ser humano acaba se constituindo pelo “ter”. O consumo gera uma fonte de prazer imediato. Esse imediatismo é característica do séc. XXI, pois entre as muitas mudanças ocorridas, a principal é a diminuição do social. O ser humano é uma unidade independente. Cada vez mais independente que tem direitos de comprar, consumir, ter seu próprio dinheiro e investir em tudo o que lhe agrade.
Esse esvaziamento do ser é consequência da falta de autorreflexão. Sem dúvida o mundo de ideias, a consciência humana deveria se desenvolver melhor a partir do pensar. Mas não é suficiente pensar que somente isso que move o mundo. Para dar firmeza a isso, basta observar as pessoas, como se comportam, se gastam seu tempo para pensar, para conversar, para ouvir. Onde, por outro lado, há a necessidade de manter uma casa, uma família, uma educação, e para tanto é necessário dinheiro. O dinheiro é o provedor do sustento e da vida humana.
Assim sendo, uma proposta é a união das duas forças, ou seja, as ideias e o capital andam juntas. Se o ser humano conseguisse deixar de competir entre essas duas forças, e, ao contrário, uni-las, quem sabe essa divergência cessasse e houvesse uma real contribuição das ideias que possam ser aplicadas na sociedade capitalista.

Atenção: Reflexão a partir da bibliografia citada para disciplina de Epistemologia sob orientação do Professor César Augusto Erthal. O professor tem ciência de que este material encontra-se disponível nesse endereço bem como a citação de seu nome aqui contido.

quarta-feira, 9 de março de 2011

~ A entrevista estrutural

Segundo Kernberg (1995), “a entrevista estrutural se assemelha ao tradicional exame do estado mental” (p.25). Isso implica diretamente em revelar informações diagnósticas e características da personalidade do examinando. Esse tipo de entrevista tem enfoque psicanalítico e tem por característica ‘ser cíclico’ onde isso implica na sintomatologia do aqui agora. Inicia-se com a exploração das queixas que o paciente traz, ou seja, os motivos que o levaram até o consultório. Também é importante que o paciente fale sobre sua história de vida, acontecimentos marcantes e situações que sejam significativos para a pessoa. O examinador deve estar atendo para interpretar possíveis discrepâncias na entrevista, além de observar o comportamento e motivação de tratamento.
Os pacientes com traços Borderline, a partir da entrevista, fazem uma reorganização e obtém uma melhora no seu funcionamento. Os psicóticos distorcem a realidade, sendo que essa informação fica clara no quando há diversas distorções no teste da realidade. Finalmente, s neuróticos tem um conceito integrado de si.
Falar livremente sobre sintomas e dificuldades é sinal de um bom teste da realidade, pois é influenciado por um sensório claro, boa memória e inteligência normal. Por outro lado, pacientes excessivamente concretos, vagos e confusos ou evasivos nas respostas são indicativos de patologia grave.
A dificuldade em responder (confrontação) e tentativa de investigação das razões para sua dificuldade de comunicação (interpretação) fornecem pistas iniciais sobre as características estruturais do paciente.
Traços patológicos de caráter também devem ser investigados, visto que descrever a si próprio, sua personalidade pode levar o paciente a um estado de autorreflexão. Isso envolve sentimentos em relação a si próprio, áreas importantes da sua vida (estudo, trabalho, família, vida social, sexo, cultura, etc.), fornecendo assim a indicação de um bom teste da realidade. No entanto, pacientes psicóticos revelam uma capacidade em manter aparências, empatia com a realidade social o que pode dificultar a busca pela interpretação da estrutura de sua personalidade. Embora isso possa ser descartado nas falas de pacientes que conseguem explorar com profundidade sua personalidade. No caso de pacientes paranóides ou repressivos, estes não falam ou o fazem com dificuldades.
A organização Borderline apresenta defesas mais primitivas, como identificação projetiva, cisão, dissociação do self, negação, grandiosidade, fragmentação dos afetos, onipotência ou desvalorização.  Para esses pacientes e também nas síndromes psicóticas, falar livremente provoca defesas primitivas, como distorção de alguma sensação. Uma das principais diferenças entre a organização Borderline e a Psicose é que enquanto na psicose há ausência de realidade e substituição por outra, no Borderline ocorre uma difusão de identidade.

A organização Neurótica da Personalidade
Nessa estrutura, os pacientes tem capacidade para testar a realidade e conseguem dar-se conta das dificuldades. Eles conseguem entender o conteúdo manifesto e também mais sutil das perguntas que lhe são feitas. Nesse sentido, as perguntas se direcionam as dificuldades do paciente sobre as relações interpessoais, adaptações ao ambiente e necessidades psicológicas.
O entrevistador deve avaliar as contradições no self (que possam indicar uma difusão da identidade) e em que medida o paciente apresenta uma concepção sólida, bem integrada de si mesmo. Nos pacientes neuróticos deve haver integração subjetiva de autoconceito.
Um ponto a ser investigado é a relação com os outros na vida deste paciente e a capacidade de introspecção que ele tem ao falar.
As defesas mais comuns utilizadas por pacientes dessa estrutura são: recalcamento, deslocamento, racionalização, intelectualização.
É importante e necessário explorar os sintomas que são do presente. Investiga-se então, a personalidade atual, assim, o entrevistador testa os limites de compreensão do paciente e integração do passado e presente, pois é através do sintoma atual que se obtém uma breve história de seu passado.

A Organização Borderline da Personalidade
Esses pacientes apresentam tipicamente uma difusão da identidade. Deve ser feita uma exploração de indiquem essa difusão, além de investigar a natureza de suas relações de objeto. Um aspecto ressaltado por Kernberg (p.35) é que não se deve clarificar ou confrontar o passado do paciente, mas registrado como este é apresentado.
A personalidade narcisista caracteriza-se por um autoconceito integrado, mas esse conceito é patológico e grandioso, com uma particular onipotência e desvalorização. Há uma superficialidade e um autoengrandecimento sutil frente ao entrevistador. Na posição Borderline, ao contrário ocorre uma confusão sobre si mesmo, expectativas irrealistas frente ao tratamento e ideias e comportamentos inapropriados com o entrevistador, o que requer uma reavaliação de seu teste de realidade. Neste segundo teste da realidade, busca-se compreender se o paciente é capaz de manter empatia com os critérios sociais da realidade, levantando questões sobre o relacionamento com outras pessoas e a natureza imprópria sobre comportamentos que ele descreva como reais.
Como não há integração da identidade, se torna difícil obter uma visão do passado desses pacientes, ou seja, é impossível ligar conflitos atuais e predominantes com o passado. O sintoma para o Borderline nada mais é, então, uma retrospectiva de conflitos atuais com outros significativos. Também se deve avaliar o comportamento antissocial, se há dificuldade com a lei como roubos, mentiras e crueldade. As respostas frente esses questionamentos são geralmente diretas e abertas.

Organização Psicótica da Personalidade
A ausência do teste de realidade é comprovada a partir de respostas inteligíveis as perguntas do entrevistador. Assim, deve-se investiga o sensório, a memória, a inteligência e a atenção. A falta de respostas pode indicar síndrome catatônica ou esquizofrenia. Para um melhor entendimento e compreensão, faz-se uma investigação da orientação, consciência, e funções cognitivas do paciente. Se o teste da realidade for perdido, deve-se considerar psicose funcional. A partir disso, fazer uma compreensão das conexões entre seu afeto, pensamento e comportamento. Analisar as alucinações enriquece o diagnóstico. Delírios também confirma a perda do teste da realidade e fornece postas sobre doença psicótica.
O entrevistador deve tentar empatizar com a realidade interna do psicótico. Muitas vezes, pacientes com alucinações e delírios apresentam-nas como ilusões (pseudoalucinações) ou ideias supervalorizadas (até obsessivas). Nesse caso, o paciente pode estar tentando manter um grau de normalidade de pensamento.
Quando não há indicação de delírios, deve-se fazer uma interpretação das operações defensivas primitivas no aqui agora.

Síndromes Cerebrais Orgânicas Agudas e Crônicas
No momento que as respostas aparecerem desorganizadas, confusas, o entrevistador pode avaliar o sensório (atenção, orientação, consciência, compreensão, julgamento). As respostas quando organizadas, porém com conteúdos bizarros geralmente são características da esquizofrenia. A capacidade introspectiva contribui para o diagnóstico diferencial dos estados confusionais orgânicos e esquizofrênicos.
Nas síndromes orgânicas, o paciente tem consciência de suas dificuldades, contudo há falta de ansiedade e depressão sobre essas dificuldades.
Nesse estado, faz-se a avaliação para possível demência, ou seja, grave deterioração da personalidade e perda do teste da realidade. Para Kernberg (p.42), a persistência de ansiedade após investigação inicial indica normalmente algum tipo de psicopatologia grave.
O término da entrevista estrutural
Nessa fase, o entrevistador abre para o paciente falar abertamente sobre alguma questão que não foi investigada na entrevista. Deve se deixar um tempo suficiente, pois podem aparecer questões adicionais e conflitos que devem ser lidados a fim de diminuir a ansiedade provinda de assuntos que despertassem o paciente. O término é importante, pois é possível avaliar a motivação do paciente para tratamento.


Referência: Kernberg, Otto. (1995). A entrevista estrutural In transtornos graves de personalidade. Cap. 2 p.25-44. Porto Alegre: Artmed.


Atenção: Essas considerações são feitas por mim a partir do texto acima referenciado e compreendido na bibliografia básica da disciplina de Processos psicopatológicos na adolescência, vida adulta e desenvolvimento, contendo aspectos do meu entender.